Laptop, telefone e ginástica
Ou como o vocabulário se atualiza rápido - e evidencia o passar da idade
Hoje, no intervalo de almoço da firma, estávamos conversando sobre atividades que nós, millennials, sentimos necessidade de fazer pelo computador e não pelo celular. Aparentemente gerações mais novas não sentem esse chamado do trambolho eletrônico para tarefas mais longas, complexas ou que requeiram mais atenção.
Fato é que eu me vali, nesse papo despretensioso de um pré-feriado, da palavra laptop, e fui imediatamente feita de chacota pela maioria jovem do grupo. Pelo visto, não só o hábito de recorrer ao laptop é coisa de gerações mais velhas, como também o termo está datado. Quem ainda ousa buscar um computador portátil o chama de notebook.
Isso me lembrou uns meses atrás, quando meu filho de sete anos me corrigiu no uso da palavra telefone em referência a celular. Ou seja, não só o telefone, tal qual os millennials o conheceram, deixou de existir (fixo, de discar, com fio, usado para conversar em áudio de maneira síncrona), como também a palavra caiu em desuso com a ascensão do Zap — óbvio, nenhum jovem que se preze fala Zap.
Não sei se é o meu espírito de idosa, que conservo desde a juventude, ou meu gosto por palavras, mas eu adoro termos decadentes. Bater retrato e dentifrício, por exemplo, fazem parte do meu vocabulário. E ginástica, que eu amo e que nenhum jovem fala (ou faz). Na minha época era malhar e depois virou treinar. Ginástica é anterior à minha idade cronológica, mas cabe perfeitamente da minha terceira idade da alma.
Vale dizer que eu uso termos vintage sabendo dessa característica. Assim como o termo top ou o uso de bermudas jeans, eu começo ironicamente e depois incorporo de verdade ao acervo. Então o baque é outro quando alguém me informa de um termo que eu considerava atual, mas que caiu de moda e eu nem percebi. É, incontestavelmente, um atestado do passar da idade.
O que me deixa em dúvida é se eu devo atualizar o vocabulário ou se isso vai parecer uma tentativa desesperada de me enturmar com quem não sabe por que o ícone de salvar é um disquete ou por que a gente chama desligar o telefone de colocar no gancho — ou chamava, quando se usava telefone. Não quero ser uma mãe (e amiga e colega de trabalho) parada no tempo, mas também não quero fingir que sou da geração Z.
O negócio é estar confortável na sua pele, ainda que com rugas, e transitar bem entre as várias gerações. Isso inclui, imagino eu, não ficar encucada com cada coisa que te apontarem do seu anacronismo. Talvez escrever um texto inteiro sobre laptop não seja um bom exemplo de "não ficar encucada". Tento de novo na próxima zoação.


